SE...
Joseph
Rudyard Kipling
Se puderes guardar o sangue
frio diante
de quem fora de si te acusar;
e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e
firmeza,
tu puderes ter fé na própria
fortaleza,
sem desprezar contudo a
desconfiança alheia...
Se tu puderes não odiar a quem
te odeia,
nem pagar com a calúnia a quem
te calunia,
sem que tires daí motivos de
ufania,
sonhar, sem permitir que o sonho
te domine;
pensar, sem que em pensar tua
ambição se confine,
e esperar sempre e sempre,
infatigavelmente...
Se com o mesmo sereno olhar
indiferente
puderes encarar a derrota e a
vitória,
como embuste que são da fortuna
ilusória,
e estóico suportar que
intrigas e mentiras
deturpem a palavra honesta que
profiras...
Se puderes, ao ver em pedaços destruída
pela sorte maldosa, a obra de
tua vida,
tomar de nôvo,
a ferramenta desgastada
e sem queixumes vãos,
recomeçar do nada...
Se, tendo loucamente arriscado
e perdido
tudo quanto era teu, num só
lance atrevido,
tu puderes voltar à faina
ingrata e dura,
sem aludir jamais à sinistra
aventura...
Se tu puderes coração,
músculos, nervos
reduzir da vontade à condição de
servos,
que, embora exausto, lhe
obedeçam ao comando...
Se, andando a par dos reis e
com os grandes lidando,
puderes conservar a naturalidade,
e no meio da turba a
personalidade;
impávido afrontar adulações,
engodos,
opressões, merecer a confiança de
todos,
sem que possa contar, todavia,
contigo
incondicionalmente o teu melhor amigo...
Se de cada minuto os sessenta
segundos
tu puderes tornar com o teu
suor fecundos...
A Terra será tua, e os bens que se não
somem,
e, o que é melhor, meu filho,
então serás um Homem!